22 Dezembro, 2009
21 Dezembro, 2009
o meu livro do ano
Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo.
Por todas as razões e mais uma: NÃO HÁ OUTRO LIVRO
ASSIM EM PORTUGAL.
Não havia.
Mas cuidado. Não é um livro fácil para se ler no Natal.
A aletria pode saber a azedo. A alegria.
Parabéns, Isabel.
És a maior.
Por todas as razões e mais uma: NÃO HÁ OUTRO LIVRO
ASSIM EM PORTUGAL.
Não havia.
Mas cuidado. Não é um livro fácil para se ler no Natal.
A aletria pode saber a azedo. A alegria.
Parabéns, Isabel.
És a maior.
17 Dezembro, 2009
13 Dezembro, 2009
aviso aos consumidores
A verdadeira escritora de romance
senta-se para escrever o seu romance
sem um gesto de êxtase. Aliás, o êxtase é incompatível
com um verdadeiro romance.
Um verdadeiro romance é uma corrente
contínua: um acto produtivo.
Aliás, a verdadeira escritora de romance
não acredita em poetas. Ela cria a rede, a atmosfera
poética,
mas a atmosfera poética está ainda dentro da sua
distribuição terrestre.
A verdadeira escritora de romance
não neutraliza as suas forças e emoções
num biscate supérfluo.
Eduarde Chiote
senta-se para escrever o seu romance
sem um gesto de êxtase. Aliás, o êxtase é incompatível
com um verdadeiro romance.
Um verdadeiro romance é uma corrente
contínua: um acto produtivo.
Aliás, a verdadeira escritora de romance
não acredita em poetas. Ela cria a rede, a atmosfera
poética,
mas a atmosfera poética está ainda dentro da sua
distribuição terrestre.
A verdadeira escritora de romance
não neutraliza as suas forças e emoções
num biscate supérfluo.
Eduarde Chiote
em "a preços de ocasião" (&etc, 1987)
11 Dezembro, 2009
cinquenta mil livros
"Tenho uma sala para literatura com 70 metros de comprimento.
Percorro-a várias vezes por dia e sinto-me bem quando o faço.
Cultura não é saber quando morreu Napoleão. Cultura significa
saber como vou descobrir isso em dois minutos. Claro que, hoje
em dia, posso encontrar esse tipo de informação na internet em
menos de um ai. Mas com a internet nunca se sabe."
Umberto Eco numa entrevista ao Der Spiegel,
publicada no i um destes dias
Percorro-a várias vezes por dia e sinto-me bem quando o faço.
Cultura não é saber quando morreu Napoleão. Cultura significa
saber como vou descobrir isso em dois minutos. Claro que, hoje
em dia, posso encontrar esse tipo de informação na internet em
menos de um ai. Mas com a internet nunca se sabe."
Umberto Eco numa entrevista ao Der Spiegel,
publicada no i um destes dias
06 Dezembro, 2009
05 Dezembro, 2009
03 Dezembro, 2009
30 Novembro, 2009
deste outono
Novembro, som absoluto,
com as suas sílabas suaves,
as vogais pairando na aragem,
e na luz lenta dourada outros
sons soltos consoantes.
Fiama Hasse Pais Brandão
retirado da "Obra Breve"
com as suas sílabas suaves,
as vogais pairando na aragem,
e na luz lenta dourada outros
sons soltos consoantes.
Fiama Hasse Pais Brandão
retirado da "Obra Breve"
29 Novembro, 2009
viver na escrita dos outros
"Quando em noites de insónia acontece pensar naquilo
que éramos e nos vem à memória uma ou outra imagem
feliz, subitamente ficamos conscientes da vertigem do
tempo. Nessas noites entro em mim própria e procuro
saber qual a razão que me fez tomar certa atitude, o
que me leva a escrever e ficar dependente das palavras.
Penso no poema onde a sobrevivência pela escrita é
possível. Escrever é como estar vivo; existe o apelo
abísmico e a luz do sol."
Isabel de Sá
que éramos e nos vem à memória uma ou outra imagem
feliz, subitamente ficamos conscientes da vertigem do
tempo. Nessas noites entro em mim própria e procuro
saber qual a razão que me fez tomar certa atitude, o
que me leva a escrever e ficar dependente das palavras.
Penso no poema onde a sobrevivência pela escrita é
possível. Escrever é como estar vivo; existe o apelo
abísmico e a luz do sol."
Isabel de Sá
em "Escrevo para desistir" (&etc, 1988)
28 Novembro, 2009
(mais) da rosa fixa
"Sempre assim foi. Desgraça dos
que não podem, uma e outra vez
amados vitalmente, reconhecer a
distância que medeia entre a hu-
mana matéria e a outra e a outra."
Maria Velho da Costa,
que não podem, uma e outra vez
amados vitalmente, reconhecer a
distância que medeia entre a hu-
mana matéria e a outra e a outra."
Maria Velho da Costa,
"Da rosa fixa" (1978)
27 Novembro, 2009
a solidificação: a solidão
os corpos gasosos movem-se
em correntes de ar
que solidificadas são
grossas paredes a separar
os outros corpos
a separar todos
os débeis estados da matéria
de Luiza Neto Jorge
em correntes de ar
que solidificadas são
grossas paredes a separar
os outros corpos
a separar todos
os débeis estados da matéria
de Luiza Neto Jorge
26 Novembro, 2009
"Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares"
Este é o quarto Augusto. Avisou que vinha. Lavei os sovacos e os pezinhos. Preparei o chá. Caso ele me cheirasse... Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.
a eterna Ana Cristina César
a eterna Ana Cristina César
de "A teus pés" (editora ática, 1999)
21 Novembro, 2009
"Como a cigarra, também eu no Inverno quero dançar. O
mundo pode acabar e eu não quero morrer sem ter fodido.
Nunca fodi. Sei como é: vi muitos filmes, li muitos livros.
Mas gosto do saber de experiência feito. Nunca nenhum
homem me beijou na boca nem nenhuma mulher. Tenho
41 anos. Não me acho velha. Acho-me feia e gorda. E afinal
já me acho velha por me achar feia e gorda. Não, acho-me
velha por ter 41 anos e por nunca ter fodido. Acho que se
pode dizer: fode ou morre. Como se diz na Faculdade:
publica ou perece."
Adília Lopes, do livro "Irmã Barata, Irmã Batata" (2000)
mundo pode acabar e eu não quero morrer sem ter fodido.
Nunca fodi. Sei como é: vi muitos filmes, li muitos livros.
Mas gosto do saber de experiência feito. Nunca nenhum
homem me beijou na boca nem nenhuma mulher. Tenho
41 anos. Não me acho velha. Acho-me feia e gorda. E afinal
já me acho velha por me achar feia e gorda. Não, acho-me
velha por ter 41 anos e por nunca ter fodido. Acho que se
pode dizer: fode ou morre. Como se diz na Faculdade:
publica ou perece."
Adília Lopes, do livro "Irmã Barata, Irmã Batata" (2000)
15 Novembro, 2009
14 Novembro, 2009
13 Novembro, 2009
batalha sem fim
"Que acontece quando se esfumam todos os sonhos de
perfeição pessoal e social? Quando o ser humano não
aspira a superar o seu egoísmo, a melhorar em termos
morais, a criar uma comunidade que premeie o mérito e
a virtude? Quando não há ideais, para onde se dirige o
impulso humano? Apenas para o poder e para o dinheiro.
O poder transforma-se num fim em si próprio. Quem não
avança em direcção ao bem avança para o poder. Em
todos os campos: política, finanças, magistratura, meio
universitário, televisão. Deixa de ter importância o que se
faz e como, por haver a ideia de que o poder e o dinheiro
permitem corromper as almas. Todos os meios passam a
ser lícitos para trepar: acordos transversais, chantagens,
sociedades secretas, licenças públicas, subornos interna-
cionais.(...)
Vivemos numa época de cinismo, de avidez, de associa-
ções secretas, de bloqueios sectários, de comportamentos
não revelados nos jornais e na televisão. São estas as for-
ças que estragam e degradam a luta política porque,
quando faltam ideais, só restam um poder contra outro e
a mentira. É preciso muita força para resistir, para conti-
nuar a agir com rectidão e rigor quando os outros não o
fazem.(...)
A história demonstra-nos que, a determinada altura, os
corruptos acabam por se autodestruir. A ineficácia torna-
-os mais fracos e, apesar de um certo grau de inércia, os
homens revoltam-se, procuram novas orientações e voltam
a ter esperança e a construir."
(título e excertos da crónica de Francesco Alberoni
perfeição pessoal e social? Quando o ser humano não
aspira a superar o seu egoísmo, a melhorar em termos
morais, a criar uma comunidade que premeie o mérito e
a virtude? Quando não há ideais, para onde se dirige o
impulso humano? Apenas para o poder e para o dinheiro.
O poder transforma-se num fim em si próprio. Quem não
avança em direcção ao bem avança para o poder. Em
todos os campos: política, finanças, magistratura, meio
universitário, televisão. Deixa de ter importância o que se
faz e como, por haver a ideia de que o poder e o dinheiro
permitem corromper as almas. Todos os meios passam a
ser lícitos para trepar: acordos transversais, chantagens,
sociedades secretas, licenças públicas, subornos interna-
cionais.(...)
Vivemos numa época de cinismo, de avidez, de associa-
ções secretas, de bloqueios sectários, de comportamentos
não revelados nos jornais e na televisão. São estas as for-
ças que estragam e degradam a luta política porque,
quando faltam ideais, só restam um poder contra outro e
a mentira. É preciso muita força para resistir, para conti-
nuar a agir com rectidão e rigor quando os outros não o
fazem.(...)
A história demonstra-nos que, a determinada altura, os
corruptos acabam por se autodestruir. A ineficácia torna-
-os mais fracos e, apesar de um certo grau de inércia, os
homens revoltam-se, procuram novas orientações e voltam
a ter esperança e a construir."
(título e excertos da crónica de Francesco Alberoni
publicada no "i" de 3 de Novembro)
11 Novembro, 2009
a canção
"Os porcos malhados do vizinho grunhem ruidosamente.
Sãu uma vara de porcos nas nuvens. Passam por cima
do pátio. A varanda está coberta por uma teia de folhas.
Cada folha faz uma sombra.
Na travessa ao lado ouve-se cantar uma voz de homem.
A canção flutua por entre as folhas. À noite a aldeia é
muito grande, pensa Windisch, "e por todo o lado está o
seu fim.."
Windisch conhece a canção: "Uma vez fui a Berlim, a ver
a linda cidade. Olari-olará-lá-lá pela noite fora." A va-
randa fica mais alta quando está assim escuro. Quando as
folhas têm sombra. Faz força no pavimento para subir.
Sobre um pau. Quando crescer demais, então o pau par-
te-se. A varanda cai no chão. No mesmo sítio. Depois de
amanhecer já não se vê que a varanda cresceu e caíu.
Windisch sente a pancada nas pedras. À sua frente está
uma mesa vazia. Está um pavor em cima da mesa. O
pavor está nas costelas de Windisch. Windisch sente o
pavor como uma pedra no bolso do casaco.
A canção flutua por entre a macieira: "Hás-de mandar-me
a tua filha, hei-de fodê-la uma vez. Olari-olará-lá-lá
pela noite fora."
Windisch mete a mão fria no bolso do casaco. No bolso
do casaco não está pedra nenhuma. Entre os seus dedos
está a canção. Windisch acompanha em voz baixa: "Meu
senhor, isso não está certo, minha filha não é p'ra foder,
Olari-olará-lá-lá pela noite fora."
Como a vara de porcos lá em cima nas nuvens é tão
grande, as nuvens arrastam-se por cima da aldeia. Os
porcos estão calados. A canção está só na noite: "Ó mãe,
deixa-me lá, para que é o meu buraco. Olari-olará-lá-lá
pela noite fora".
O caminho de volta a casa é longo. O homem caminha na
escuridão. A canção não pára. "Ó mãe empresta-me a tua,
a minha é pequena demais. Olari-olará-lá-lá pela noite
fora." A canção é pesada. A voz é grave. Há uma pedra na
canção. Corre água fria sobre a pedra. "Não ta posso em-
prestar, amanhã teu pai precisa dela. Olari-olará-lá-lá
pela noite fora."
Windisch tira a mão do bolso do casaco. Perde a pedra.
Perde a canção.
"Amalie", pensa Windisch, "afasta as pontas dos pés ao
andar sobre a terra."
Herta Müller,
Sãu uma vara de porcos nas nuvens. Passam por cima
do pátio. A varanda está coberta por uma teia de folhas.
Cada folha faz uma sombra.
Na travessa ao lado ouve-se cantar uma voz de homem.
A canção flutua por entre as folhas. À noite a aldeia é
muito grande, pensa Windisch, "e por todo o lado está o
seu fim.."
Windisch conhece a canção: "Uma vez fui a Berlim, a ver
a linda cidade. Olari-olará-lá-lá pela noite fora." A va-
randa fica mais alta quando está assim escuro. Quando as
folhas têm sombra. Faz força no pavimento para subir.
Sobre um pau. Quando crescer demais, então o pau par-
te-se. A varanda cai no chão. No mesmo sítio. Depois de
amanhecer já não se vê que a varanda cresceu e caíu.
Windisch sente a pancada nas pedras. À sua frente está
uma mesa vazia. Está um pavor em cima da mesa. O
pavor está nas costelas de Windisch. Windisch sente o
pavor como uma pedra no bolso do casaco.
A canção flutua por entre a macieira: "Hás-de mandar-me
a tua filha, hei-de fodê-la uma vez. Olari-olará-lá-lá
pela noite fora."
Windisch mete a mão fria no bolso do casaco. No bolso
do casaco não está pedra nenhuma. Entre os seus dedos
está a canção. Windisch acompanha em voz baixa: "Meu
senhor, isso não está certo, minha filha não é p'ra foder,
Olari-olará-lá-lá pela noite fora."
Como a vara de porcos lá em cima nas nuvens é tão
grande, as nuvens arrastam-se por cima da aldeia. Os
porcos estão calados. A canção está só na noite: "Ó mãe,
deixa-me lá, para que é o meu buraco. Olari-olará-lá-lá
pela noite fora".
O caminho de volta a casa é longo. O homem caminha na
escuridão. A canção não pára. "Ó mãe empresta-me a tua,
a minha é pequena demais. Olari-olará-lá-lá pela noite
fora." A canção é pesada. A voz é grave. Há uma pedra na
canção. Corre água fria sobre a pedra. "Não ta posso em-
prestar, amanhã teu pai precisa dela. Olari-olará-lá-lá
pela noite fora."
Windisch tira a mão do bolso do casaco. Perde a pedra.
Perde a canção.
"Amalie", pensa Windisch, "afasta as pontas dos pés ao
andar sobre a terra."
Herta Müller,
"O homem é um grande faisão sobre a terra"
10 Novembro, 2009
09 Novembro, 2009
07 Novembro, 2009
so many feelings
O rádio do carro. O governo sombra a fechar - evocando o grande
António Sérgio - com uma música dos The Sound. I can't escape
myself. Há quanto tempo não ouvia esta música (esta frase precisava
de um ponto de exclamação, mas hoje não estou para sinais
que gritem demasiado). Esta música que eu não sabia perdurar ainda
tanto dentro de mim, tão gravada nos meus ossos. O ritmo nervoso
e contagiante, a melodia abrindo dores inomeáveis. O rádio no carro,
na manhã incerta, a caminho do hospital. Não sei o que o futuro me
reserva, mas sei que não posso escapar aos meus sentimentos.
António Sérgio - com uma música dos The Sound. I can't escape
myself. Há quanto tempo não ouvia esta música (esta frase precisava
de um ponto de exclamação, mas hoje não estou para sinais
que gritem demasiado). Esta música que eu não sabia perdurar ainda
tanto dentro de mim, tão gravada nos meus ossos. O ritmo nervoso
e contagiante, a melodia abrindo dores inomeáveis. O rádio no carro,
na manhã incerta, a caminho do hospital. Não sei o que o futuro me
reserva, mas sei que não posso escapar aos meus sentimentos.
05 Novembro, 2009
01 Novembro, 2009
31 Outubro, 2009
29 Outubro, 2009
portugal no seu melhor
"A primeira coisa que aprendi foi que isso do amor incondicional de
mãe não existe. Se soubesse a quantidade de mães que abandonam
os filhos por esse país fora...
Havia sempre muito mais cartas de filhos à procura de pais que de
pais à procura de filhos. E quando os pais eram encontrados muitas
vezes não mostravam alegria ou arrependimento ou culpa pelo que
tinham feito. Isso chocou-me muito. A outra coisa que aprendi foi
que há por aí muitos óbitos não registados, alguns casos de bigamia
e pessoas que têm no registo pais que não são os biológicos... sem
que tenha havido adopção."
(palavras de Lurdes Gândara, jornalista do antigo programa televisivo
da SIC "Ponto de Encontro", retiradas de um artigo de Sónia Morais
Santos para o jornal "i" do passado fim-de-semana)
mãe não existe. Se soubesse a quantidade de mães que abandonam
os filhos por esse país fora...
Havia sempre muito mais cartas de filhos à procura de pais que de
pais à procura de filhos. E quando os pais eram encontrados muitas
vezes não mostravam alegria ou arrependimento ou culpa pelo que
tinham feito. Isso chocou-me muito. A outra coisa que aprendi foi
que há por aí muitos óbitos não registados, alguns casos de bigamia
e pessoas que têm no registo pais que não são os biológicos... sem
que tenha havido adopção."
(palavras de Lurdes Gândara, jornalista do antigo programa televisivo
da SIC "Ponto de Encontro", retiradas de um artigo de Sónia Morais
Santos para o jornal "i" do passado fim-de-semana)
25 Outubro, 2009
20 Outubro, 2009
o inesgotável tema do nobel
Expresso — Foi hoje anunciado o vencedor do Prémio Nobel da
Literatura.
Philip Roth — Quem ganhou?
E. — Herta Müller.
P.R. — Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
E. — Não, até hoje de manhã... Mas o seu próprio nome aparece
constantemente como um potencial vencedor...
P.R. — Isso é um erro. O meu nome é falado na imprensa, mas não
na Suécia. Isso é apenas falatório.
E. — Dá alguma importância ao prémio?
P.R. — No ano passado, foi atribuído a Harold Pinter, e ele é um
óptimo escritor [Na verdade, Pinter recebeu o Nobel em 2005].
Há dois anos, o prémio foi para Doris Lessing, que também é uma
escritora muito boa. Mas, no cômputo geral, o Nobel não vai para
grande escritores.
E. — Conhece o trabalho de José Saramago?
P.R. — Não, não conheço.
E. — Conhece algum escritor português?
P.R. — Não. Conheço a obra do brasileiro Machado de Assis. Não
leio muitos autores contemporâneos. Nos últimos anos, tenho relido
muitos escritores que li quando estava na casa dos 20 anos. Como,
por exemplo, o Hemingway...
[Rapidamente o tema do Nobel esgotou-se. Roth, que venceu todos
os prémios que há para vencer, à excepção do Nobel, não demonstrou
nenhuma expressão de desapontamento ou de tristeza face ao anúncio
da vitória de Herta Müller.]
(excerto da entrevista de João Luz a Philip Roth publicada no
Expresso de 17 de Outubro )
Literatura.
Philip Roth — Quem ganhou?
E. — Herta Müller.
P.R. — Nunca ouvi falar. Você já ouviu?
E. — Não, até hoje de manhã... Mas o seu próprio nome aparece
constantemente como um potencial vencedor...
P.R. — Isso é um erro. O meu nome é falado na imprensa, mas não
na Suécia. Isso é apenas falatório.
E. — Dá alguma importância ao prémio?
P.R. — No ano passado, foi atribuído a Harold Pinter, e ele é um
óptimo escritor [Na verdade, Pinter recebeu o Nobel em 2005].
Há dois anos, o prémio foi para Doris Lessing, que também é uma
escritora muito boa. Mas, no cômputo geral, o Nobel não vai para
grande escritores.
E. — Conhece o trabalho de José Saramago?
P.R. — Não, não conheço.
E. — Conhece algum escritor português?
P.R. — Não. Conheço a obra do brasileiro Machado de Assis. Não
leio muitos autores contemporâneos. Nos últimos anos, tenho relido
muitos escritores que li quando estava na casa dos 20 anos. Como,
por exemplo, o Hemingway...
[Rapidamente o tema do Nobel esgotou-se. Roth, que venceu todos
os prémios que há para vencer, à excepção do Nobel, não demonstrou
nenhuma expressão de desapontamento ou de tristeza face ao anúncio
da vitória de Herta Müller.]
(excerto da entrevista de João Luz a Philip Roth publicada no
Expresso de 17 de Outubro )
18 Outubro, 2009
14 Outubro, 2009
o homem é um grande faisão sobre a terra
" Windisch vai empurrando a bicicleta. Olha para a lua. O guarda-
-nocturno diz em voz baixa, mastigando: "O homem é um grande
faisão sobre a terra." Windisch levanta o saco e coloca-o na bicicleta.
" O homemm é forte, diz ele, "mais forte que as bestas."
O jornal tem uma ponta levantada. O vento parece uma mão a em-
purrar. O guarda-nocturno põe a faca sobre o banco. "Passei pelas
brasas", diz ele. Windisch curva-se sobre a bicicleta. Ergue a cabeça.
"Eu acordei-te". "Não foste tu", diz o guarda-nocturno, "a minha
mulher é que me acordou." Sacode as migalhas de pão do casaco.
"Já sabia que não conseguia dormir. A lua vai cheia. Sonhei com o
sapo seco. Sentia um cansaço de morte. E não conseguia ir dormir. O
sapo estava deitado na cama. Falei com a minha mulher. O sapo
olhava com os olhos da minha mulher. Tinha a trança da minha
mulher. Trazia a camisa de dormir dela vestida e enrodilhada até à
barriga. Eu disse-lhe, tapa-te que tens as coxas murchas. Eu disse
isso à minha mulher. O sapo tapou as coxas com a camisa de dormir.
Eu sentei-me na cadeira junto da cama. O sapo sorriu com a boca da
minha mulher. A cadeira chia, disse ele. A cadeira não estava a chiar.
O sapo pôs a trança da minha mulher sobre o ombro. A trança era tão
comprida como a camisa. Eu disse: o teu cabelo cresceu. O sapo er-
gueu a cabeça e gritou: Tu estás bêbado, não tarda que caias da ca-
deira abaixo."
Uma nuvem mancha a lua de vermelho. Windisch encosta-se à parede
da azenha. "O ser humano é estúpido", diz o guarda-nocturno, "e
está sempre pronto a perdoar." O cão come um pedaço do coirato. "A
ela, perdoei tudo", diz o guarda-nocturno. "Perdoei-lhe o padeiro.
Perdoei-lhe o comportamento na cidade." Passa as pontas dos dedos
pela lâmina da faca: "A aldeia em peso fez pouco de mim." Windisch
suspira. "Eu nem conseguia olhá-la nos olhos", diz o guarda-nocturno:
"Só uma coisa não consegui perdoar-lhe: é que tivesse morrido tão
depressa como se não tivesse ninguém. Isso é que não lhe perdoei."
"Sabe Deus" diz Windisch, "para que é que elas existem, as mulheres."
O guarda-nocturno encolhe os ombros: "Para nós é que não" diz ele.
"Nem para mim, nem para ti. Não sei para quem." O guarda-nocturno
faz uma festa ao cão. "E as filhas", diz Windisch, "sabe Deus, também
elas se tornam mulheres."
(excerto de "O homem é um grande faisão sobre a terra" de Herta Müller)
-nocturno diz em voz baixa, mastigando: "O homem é um grande
faisão sobre a terra." Windisch levanta o saco e coloca-o na bicicleta.
" O homemm é forte, diz ele, "mais forte que as bestas."
O jornal tem uma ponta levantada. O vento parece uma mão a em-
purrar. O guarda-nocturno põe a faca sobre o banco. "Passei pelas
brasas", diz ele. Windisch curva-se sobre a bicicleta. Ergue a cabeça.
"Eu acordei-te". "Não foste tu", diz o guarda-nocturno, "a minha
mulher é que me acordou." Sacode as migalhas de pão do casaco.
"Já sabia que não conseguia dormir. A lua vai cheia. Sonhei com o
sapo seco. Sentia um cansaço de morte. E não conseguia ir dormir. O
sapo estava deitado na cama. Falei com a minha mulher. O sapo
olhava com os olhos da minha mulher. Tinha a trança da minha
mulher. Trazia a camisa de dormir dela vestida e enrodilhada até à
barriga. Eu disse-lhe, tapa-te que tens as coxas murchas. Eu disse
isso à minha mulher. O sapo tapou as coxas com a camisa de dormir.
Eu sentei-me na cadeira junto da cama. O sapo sorriu com a boca da
minha mulher. A cadeira chia, disse ele. A cadeira não estava a chiar.
O sapo pôs a trança da minha mulher sobre o ombro. A trança era tão
comprida como a camisa. Eu disse: o teu cabelo cresceu. O sapo er-
gueu a cabeça e gritou: Tu estás bêbado, não tarda que caias da ca-
deira abaixo."
Uma nuvem mancha a lua de vermelho. Windisch encosta-se à parede
da azenha. "O ser humano é estúpido", diz o guarda-nocturno, "e
está sempre pronto a perdoar." O cão come um pedaço do coirato. "A
ela, perdoei tudo", diz o guarda-nocturno. "Perdoei-lhe o padeiro.
Perdoei-lhe o comportamento na cidade." Passa as pontas dos dedos
pela lâmina da faca: "A aldeia em peso fez pouco de mim." Windisch
suspira. "Eu nem conseguia olhá-la nos olhos", diz o guarda-nocturno:
"Só uma coisa não consegui perdoar-lhe: é que tivesse morrido tão
depressa como se não tivesse ninguém. Isso é que não lhe perdoei."
"Sabe Deus" diz Windisch, "para que é que elas existem, as mulheres."
O guarda-nocturno encolhe os ombros: "Para nós é que não" diz ele.
"Nem para mim, nem para ti. Não sei para quem." O guarda-nocturno
faz uma festa ao cão. "E as filhas", diz Windisch, "sabe Deus, também
elas se tornam mulheres."
(excerto de "O homem é um grande faisão sobre a terra" de Herta Müller)












